A Cozinha Francesa

Clássicos, chefs e história da gastronomia francesa, por Andre Raittz

Sobremesas

Croissant: receita em dois dias, laminação explicada e os erros que fazem a manteiga vazar

Publicado em 26 de outubro de 2026

Croissant é o pão francês em meia-lua feito de uma massa fermentada dobrada com manteiga, que no forno vira dezenas de camadas finas e crocantes. Aqui estão a receita para 8 unidades em dois dias, a laminação explicada (a placa de manteiga, as dobras simples e a temperatura), como saber que a manteiga rachou ou derreteu, o que muda com a manteiga brasileira e a tabela de erros com a correção de cada um.

Croissant de manteiga

  • Rende: 8 croissants
  • Preparo: 480 min
  • Cozimento: 15 min
  • Total: 495 min

Ingredientes

  • Massa (détrempe): 250 g de farinha de trigo (cerca de 2 xícaras de chá)
  • Massa: 31 g de açúcar (2 colheres de sopa rasas)
  • Massa: 6 g de sal (1 colher de chá rasa)
  • Massa: 4 g de fermento biológico seco instantâneo (1 colher de chá rasa) ou 12 g de fresco
  • Massa: 100 ml de leite morno (cerca de 7 colheres de sopa)
  • Massa: 25 ml de água morna (quase 2 colheres de sopa)
  • Massa: 20 g de manteiga sem sal amolecida (1 colher de sopa cheia)
  • Massa: cerca de 18 ml de água bem gelada, só o necessário para a massa se juntar (1 colher de sopa e um pouco)
  • Placa: 140 g de manteiga sem sal firme, de preferência em placa ou de tourage (cerca de 3/4 de um tablete de 200 g)
  • Para pincelar: 1 ovo batido com 1 pitada de sal

Modo de preparo

  1. Dia 1. Dissolva o fermento no leite e na água mornos por 10 minutos. Junte a farinha, o açúcar, o sal e a manteiga amolecida e misture até a massa se soltar, juntando a água gelada aos poucos. A massa não deve passar de 30 °C; em cozinha quente, use a água bem gelada.
  2. Deixe a massa 45 minutos em temperatura ambiente (menos em dia quente), modele num retângulo de cerca de 14 x 27 cm, embrulhe e leve à geladeira por 2 horas.
  3. Enquanto isso, bata a manteiga entre duas folhas de papel-manteiga até formar um quadrado de cerca de 13 cm e leve à geladeira. Ela deve dobrar sem quebrar nem amolecer.
  4. Coloque a placa sobre uma das metades da massa, dobre a outra por cima e feche as bordas.
  5. Abra a massa num retângulo comprido, de cerca de três vezes o comprimento, e dobre em três (primeira dobra simples). Embrulhe e gele por pelo menos 30 minutos.
  6. Repita a abertura e a dobra em três mais duas vezes, com pelo menos 30 minutos de geladeira entre elas. Se a manteiga brilhar ou escorrer, gele antes de continuar.
  7. Embrulhe e deixe a massa na geladeira durante a noite.
  8. Dia 2. Abra a massa até 4 a 5 mm de espessura, apare as bordas e corte 8 triângulos iguais, de cerca de 10 cm de base e 25 a 30 cm de altura (60 a 70 g de massa cada).
  9. Faça um pequeno corte na base, estique levemente e enrole da base para a ponta, sem apertar, com a ponta para baixo. Curve as pontas.
  10. Disponha na assadeira com papel-manteiga, bem afastados, e deixe em apreto a 27 a 28 °C por 1 h 30 a 2 h 30, até crescerem bem e tremerem ao mover a assadeira. Pincele com ovo duas vezes durante o apreto.
  11. Preaqueça o forno a 190 °C (180 °C com ventilação). Pincele uma última vez e asse por 12 a 15 minutos, até dourar por igual.
Croissant inteiro em meia-lua, dourado e brilhante, com as camadas de massa visíveis, sobre fundo branco
Foto: SKopp, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

O que saber antes de começar

O croissant é uma massa de pão folhada: uma massa fermentada (a détrempe) que recebe uma placa de manteiga e é dobrada várias vezes, até virar dezenas de camadas finas de massa e gordura. No forno, a água da manteiga vira vapor e separa as camadas. O resultado é uma casca que estala e um miolo em favo, úmido e elástico. Em francês, a massa se chama pâte levée feuilletée.

Esta receita rende 8 croissants, o que cabe numa bancada e numa geladeira domésticas. O que decide o resultado é a temperatura: a manteiga e a massa precisam ter a mesma consistência em cada dobra, e a cozinha precisa estar fria o bastante para a manteiga não escorrer.

A manteiga: o que muda no Brasil

A manteiga de laminação (tourage) tem no mínimo 82% de gordura, e a "seca" chega a 84%, com ponto de fusão em torno de 32 a 34 °C. A norma brasileira (Portaria 146/1996 do Ministério da Agricultura) pede no mínimo 82% de matéria gorda e no máximo 16% de umidade na manteiga, e 80% de gordura na salgada. Ou seja, a manteiga sem sal de mercado está, no papel, no mesmo patamar da francesa comum. O que muda é o manuseio:

SituaçãoO que aconteceO que fazer
Manteiga sem sal comum, em tableteFunciona, mas amolece rápido numa cozinha quenteMantenha na geladeira até o último minuto e devolva a massa ao frio entre as dobras
Manteiga com salPode ter só 80% de gordura e deixa a massa salgada além do pontoEvite; se for a única opção, tire quase todo o sal da massa e prove
Manteiga de laminação, em placa (lojas de confeitaria e atacado)Mais gordura e mais plasticidade, mais fácil de laminarA melhor escolha, quando houver
Margarina de laminaçãoFunde mais alto (a indústria usa margarina que funde entre 40 e 44 °C) e é mais fácil de laminar, mas sem o sabor da manteigaOutro produto: não é croissant de manteiga

Cronograma em dois dias

QuandoEtapaTempo
Dia 1Amassar a détrempe e deixar 45 minutos fora da geladeira (menos em dia quente)cerca de 1 h
Dia 1Massa na geladeira, em retângulo; a placa de manteiga também gela2 h
Dia 1Fechar a manteiga na massa e dar três dobras simples, com pelo menos 30 minutos de geladeira entre elascerca de 2 h
NoiteMassa embrulhada na geladeira8 a 12 h
Dia 2Abrir, cortar e enrolarcerca de 45 min
Dia 2Apreto (a fermentação final, já modelados)1 h 30 a 2 h 30
Dia 2Forno12 a 15 min

Na ficha, o preparo de 480 minutos (8 horas) soma o trabalho e as esperas dos dois dias, sem contar a noite na geladeira; o cozimento é o forno. Das 8 horas, 2 a 3 são trabalho de verdade.

Como fazer sem errar: a laminação

Détrempe. Misture a farinha, o açúcar, o sal, o fermento, o leite, a água e a manteiga amolecida até a massa se soltar do gancho (ou das mãos), sem sovar além disso: massa muito trabalhada fica elástica e encolhe na hora de abrir. Acima de 30 °C a massa levanta cedo demais; em cozinha quente, use a água bem gelada. Deixe uns 45 minutos fora da geladeira (menos se a cozinha passar de 25 °C, mais se estiver abaixo de 20 °C), modele um retângulo de uns 14 x 27 cm e leve ao frio.

Placa de manteiga (beurrage). Coloque a manteiga firme entre duas folhas de papel-manteiga e bata com o rolo, dobrando as bordas do papel como um envelope, até formar um quadrado de uns 13 cm de lado, de espessura uniforme. A manteiga precisa dobrar sem quebrar e sem amolecer: se estala, está fria demais; se deixa marca de dedo e brilha, está quente.

Fechar a manteiga. Coloque a placa sobre uma metade da massa, dobre a outra por cima e feche bem as bordas para a manteiga não escapar.

Três dobras simples. Na dobra simples (a "carta", ou tour simple), a massa aberta num retângulo comprido é dobrada em três. Abra sempre na mesma direção, até uns três vezes o comprimento, dobre em três e marque a massa com o dedo para saber quantas dobras já foram (um toque depois da primeira, dois depois da segunda). Descanse pelo menos 30 minutos na geladeira entre uma dobra e a seguinte.

Como saber se a manteiga rachou ou derreteu

O que você vêO que aconteceuO que fazer
Manteiga em pedaços, massa rasgando e marmorizadaManteiga fria demais ou massa dura demais: a manteiga se despedaçou em vez de esticarDeixe 5 a 10 minutos fora da geladeira, até a manteiga dobrar sem quebrar, e abra com calma
Manteiga mole, brilhando, escorrendo pelas bordasFicou líquida e se misturou à massaPare, embrulhe e leve à geladeira; polvilhe farinha só onde precisa

Manteiga quebrada deixa o croissant denso em partes; derretida, é absorvida pela massa e sai um pão doce, não um folhado.

Cortar, enrolar e o apreto

Na manhã seguinte, abra a massa até uns 4 a 5 mm de espessura, apare as bordas retas (elas não laminam) e corte 8 triângulos iguais, de uns 10 cm de base e 25 a 30 cm de altura. Esses tamanhos são uma adaptação nossa: o importante é que os 8 pedaços tenham o mesmo peso, perto de 60 a 70 g. Faça um pequeno corte no meio da base, estique levemente o triângulo e enrole da base para a ponta, sem apertar, com a ponta voltada para baixo. Curve as pontas em meia-lua.

O apreto (apprêt) dura de 1 h 30 a 2 h 30. As fontes dão 27 a 30 °C, mas a manteiga amolece perto dos 32 °C: fique na faixa mais baixa, por exemplo num forno apagado com uma tigela de água quente embaixo. Está pronto quando as camadas se separam visivelmente e o croissant fica leve, quase trêmulo ao mover a assadeira, bem maior que o modelado. Pincele com ovo e uma pitada de sal duas vezes durante o apreto e uma antes de assar.

Asse em forno preaquecido a 190 °C (180 °C com ventilação) por 12 a 15 minutos, até dourar por igual e parar de crescer.

Erros comuns e como corrigir

ProblemaCausa mais provávelCorreção
A manteiga vazou na assadeiraApreto quente demais, forno frio ou camadas rasgadasApreto abaixo de 30 °C, forno bem preaquecido, abrir sem forçar
Sem camadas, miolo uniforme como pãoManteiga derretida na massa durante as dobrasGelar sempre que a manteiga brilhar; trabalhar rápido
Denso e pesadoApreto curto demais ou fermento fracoEsperar o croissant crescer bem e tremer; renovar o fermento
Camadas descoladas, miolo oco demaisApreto longo demais ou enrolado frouxoParar o apreto quando as camadas aparecem; enrolar com tensão leve
Casca dura e secaForno quente demais ou tempo longo demaisReduzir 10 °C e tirar assim que dourar
Fundo encharcado de manteigaPlaca mal fechada ou massa aberta fina demaisSelar as bordas e respeitar a espessura

As causas são as mais comuns na prática de padaria e variam com o forno e a farinha de cada casa; não vêm de um estudo.

Como servir, guardar e congelar

O croissant é melhor no dia, ainda morno. No dia seguinte, uns 5 minutos em forno a 160 °C devolvem a casca. Para congelar, uma prática comum é congelar os croissants já modelados, antes do apreto, e deixá-los fermentar depois de descongelados. Outros doces de forno franceses: a madeleine, as profiteroles e o macaron. Antes de começar, vale deixar tudo pesado e à mão, como na mise en place.

De onde vem o croissant: kipferl, Viena e Paris

A ideia do pão em meia-lua é austríaca: o kipferl, pãozinho em crescente, é documentado desde pelo menos o século XIII. O elo com Paris é a Boulangerie Viennoise que o oficial austríaco August Zang abriu na rua de Richelieu, 92, em 1838 ou 1839 (as fontes divergem), vendendo kipferl e outras especialidades vienenses; ela inspirou imitadores e a ideia da viennoiserie. A palavra "croissant" aparece em 1853 numa lista de pães de fantasia e de luxo, e em 1869 já era item do café da manhã.

O croissant folhado veio depois: no começo do século XX, padeiros franceses trocaram a massa de brioche do kipferl por uma massa fermentada laminada. A primeira receita conhecida nesse formato é de 1905 ou 1906 (a de 1906 está na Nouvelle Encyclopédie culinaire, de Colombié). A técnica de laminar é mais velha: Le Cuisinier françois, de La Varenne, a traz na edição de 1680 (talvez antes), em massas folhadas usadas para empadões e vol-au-vent, e só no século XX ela se liga ao croissant.

A lenda diz que o croissant nasceu para celebrar a derrota dos otomanos no cerco de Viena, em 1683, com a forma do crescente do estandarte inimigo (outra versão põe o episódio no cerco de Budapeste, em 1686). É lenda, sem fonte da época. Alfred Gottschalk contou a versão de Budapeste no Larousse Gastronomique de 1938 e, em 1948, passou à de Viena.

Sobre esta receita

Esta é uma receita documentada e adaptada: os pesos seguem uma pâte levée feuilletée publicada por um site de receitas francês (500 g de farinha para 275 g de manteiga de laminação, três dobras simples), reduzida a metade, para 8 croissants. Temperaturas, repousos, apreto e forno vêm de fontes que variam entre si (o descanso entre dobras vai de 30 minutos a mais de 4 horas conforme o autor), então a receita usa a faixa mais curta e manda reconhecer o ponto pelo toque e pela aparência. Os tamanhos da placa, do retângulo e dos triângulos são práticas usuais adaptadas por nós, sem fonte específica, e os limites de manteiga vêm da Portaria 146/1996.

Fontes: Wikipédia, Croissant (kipferl, Zang, 1853, 1869, primeira receita de 1905 ou 1906, La Varenne, lenda e Gottschalk, margarina na indústria); Du Bocal à l'Assiette, La technique du tourage des croissants (manteiga de 82% e 84%, ponto de fusão, sinais de manteiga fria ou quente, repousos, apreto de 27 a 30 °C); Cuisine d'Aubery, Pâte feuilletée levée (proporções, três dobras simples); Cuisine d'Aubery, Croissants au beurre (apreto, ovo, forno a 190 °C por 12 a 15 minutos); Portaria 146/1996, Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade de Manteiga (mínimo de 82% de matéria gorda e 16% de umidade no máximo; 80% na salgada).

Para o contexto, veja o resumo da cozinha francesa.

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